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Publicado: Quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

A saudade que me acompanha

Crédito: APCRC A saudade que me acompanha

Um sorriso que iluminava o corpo inteiro. Um olhar que tirava do eixo gravitacional. Um toque que ouriçava toda a superfície. Um beijo que desacelerava o tempo. Um sentimento que fazia todo o sentido mesmo parecendo tão equivocado em alguns momentos. Um encontro de corpos cortantes. Almas suplicantes por uma razão de viver.

 

O que é a saudade senão aquilo que não conseguimos alcançar, exceto nos recôncavos do afeto primal. Um momento captado no tempo, deixando rastros lacerantes de amor e dor. Um grito escondido no peito. Um desejo perdido ao vento. Um amor que não cessa nem ao relento.

 

Onde está o sonho novelesco, os planos de arabesco e a vida inteira pela frente? Por onde anda aquela imagem vibrante vindo ao longe num gingado tão próprio, tão seu? Em qual coração tem aportado sua inquietante existência? Quais amores tem chamado de seu? Qual o colo que te consola agora? Por que as imperfeições não podem vagar juntas através de uma existência por vezes tão árida? Qual o problema com o perdão doído, com a mão estendida no ar, com o colo necessário?

 

A saudade não deixa de querer tudo aquilo que foi prometido, todas as possibilidades incertas, toda a imensidão de horizontes vindouros. Estacionada no momento em que se apaixonou há milhares de anos atrás. Segue solitária na lágrima sorrateira que escapa dos olhos. E todo dia visita o coração que ainda pulsa de amor e desejo.

 

Saudade danada. Não deixa a vida ser assim tão impessoal. Brisa aquecida que acolhe a lembrança e acaricia. Saudade que judia e de noite brilha no quarto como uma fotografia envelhecida. Saudade saudosa que habita a retina e como um farolete ilumina a alma.

 

Saudade esta que carrego dentro de mim, que me diz e contradiz, e me refaz em 1901 partículas de amor infinito. Intensidade que vibra no corpo. Sentimento que pulula na superfície da minha existência, vagando solto na liberdade de afetos partilhados.

 

Saudade dolorida, amiga despercebida de horas tão incertas. Venha com seu sopro gélido amansar o fogo que arde e instaura na essência sua presença inevitável. Saudade querida, reverta essas feridas em movimentos repletos de energia e faça das cicatrizes as marcas simbólicas de uma grande e significativa vida. 

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A vida nossa de cada dia

Ana Paula Cavalheiro

Ana Paula Cavalheiro

Formada em Ciências Sociais pela USP-SP, Psicologia pela Unimep e especialista em Psicopedagogia. Faz atendimentos psicológicos clínicos particulares, presta assistência na Delegacia da Mulher e produz artigos que retratam temáticas existenciais.

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